Tropa de Elite e um sinal concreto de mudança na sociedade
Desde que me envolvi com o trabalho colaborativo, no meu caso através do software livre, por ter sido talvez a primeira (ou única até então) forma de trabalho colaborativo a que tive acesso, não parei um minuto de imaginar quando esta nova forma de construção de conhecimento iria "infectar" outros setores da sociedade. Sempre imaginei que a próxima onda seria através da música, mas acho que estava equivocado (innovation happens anywere).

Sempre observo determinadas coisas que ocorrem em nossa sociedade sob a ótica de um investigador, que procura sempre a causa raíz, o motivo que está por trás de tudo o que ocorre, e observando algo que ocorreu recentemente no Brasil, passei a pensar sobre o assunto (e olha que isso não sai da minha cabeça já a algumas semanas).

Me refiro ao que ocorre hoje no Brasil com o filme "Tropa de Elite", que já foi assistido por milhares de pessoas, através de cópias piratas, semanas antes do lançamento oficial do filme, no próximo dia 12 de outubro. Neste exato momento, o programa Roda Vida da TV Cultura está entrevistando o diretor do filme e todos os convidados (incluindo o diretor) falam do filme como se ele já tivesse sido exibido em todos os cinemas do Brasil.

O fato concreto é um só: A versão final do filme vazou (criminosamente até então) e é possível comprar uma cópia alternativa do filme em qualquer camelô do Brasil (não uso aqui o termo "pirata", pois concordo em gênero, número e grau com o Sérgio Amadeu quando diz que o Brasil não tem pirataria, tem corso, mas isso pode ser tema de outro post. Estou aqui até extrapolando o limite dado ao conceito inicial dele, focado em software, mas isto é aceitável no ambiente de debate de idéias).

Tentei imaginar o que ocorreu para que tal vazamento desse tão certo e a conclusão final a que chego é que o ocorrido é um sinal claro de mudança dos tempos, em última análise mudança do mercado consumidor e que isso precisa ser levado em consideração com urgência por toda a sociedade.

Já conversei bastante com muitas pessoas sobre o tema e no início da minha reflexão, estabeleci uma tese inicial de que a permissividade do brasileiro a determinados tipos de ilegalidade e a famosa Lei de Gerson explicavam o ocorrido, mas não me covenci desta tese, principalmente depois que descobri que uma série de pessoas que são profundamente contrárias a tudo isso acabaram comprando a sua cópia alternativa e assisinto a ela (mesmo que neguem publicamente isso até o final da vida).

Passei então a imaginar que toda esta situação estivesse relacionada ao custo, afinal um DVD alternativo custa R$ 5,00 e pode ser assisitdo por um grupo de pessoas que certamente gastariam 10 ou 20 vezes mais que isso para ir ao cinema. Talvez para uma parcela dos compradores, o custo tenha sido a principal motivação, mas para outra o custo é irrelevante (e é essa que se vangloria de não ter visto o filme ainda).

A meu ver, esta segunda parcela comprou a sua cópia alternativa por não ter paciência de esperar a data de lançamento e/ou por não se sentir tão bem assim nas "confortáveis" salas de cinema que temos no Brasil.

Seja por um motivo ou pelo outro, o fato concreto é que o perfil do consumidor de cinema brasileiro mudou, e a curiosidade para ver um filme que retrata nossa realidade é gigantesca.

Passei então a pensar sobre até que ponto os fatores que elevam o custo e expandem o prazo de lançamento dos filmes atualmente é realmente válido e até que ponto ele está inchado (como já foi constatado no mercado fonográfico). Observei ai diversas similaridades com o movimento do Software Livre e confesso que estou impressionado com algumas coisas que constatei.

Falando em custos em primeiro lugar, ao contrário do que imaginamos, um grande filme não precisa ser necessariamente um filme caro, com muitos e elaborados efeitos especiais. Apenas para citar três exemplos de filmes que fogem completamente desta descrição e que estão em minha lista de favoritos, cito Cães de Aluguel, Festim Diabólico e Jogos Mortais. Os três filmes foram quase integralmente rodados em uma única locação (um galpão, um apartamente e um porão ou qualquer coisa parecida), com poucos atores e com efeitos especiais nada sofisticados. O seu grande segredo é a história muito bem escrita, roteiro exepcional e interpretação muito convincente dos atores. Com tudo isso colocado, não tenho dúvidas de que um grupo talentoso de escritores, roteiristas e atores amadores seriam capazes de produzir algo extremamente convincente. Atualmente câmeras digitais de qualidade já são acessíveis e dependendo do meio de distribuição, um celular na mão já é um excelente começo.

A distribuição do filme produzido poderia ser feita com custos próximos a zero, uma vez que temos atualmente YouTubes, redes P2P e demais mecanismos de compartilhamento de conteúdo. Quer comprar uma cópia em DVD... ótimo... é só olhar na esquina mais próxima e um camelô poderá lhe fornecer uma cópia.

Prá quem acha que estou maluco por escrever isso aqui, lembre-se que alguns projetos de software livre se iniciaram com poucas dezenas de linhas de código desenvolvidas por uma única pessoa e que altualmente possuem milhares de linhas de código e centenas de desenvolvedores (sem falar nos milhares de usuários no mundo todo). Fazendo a analogia correta, uma história ou um enredo de filme pode se iniciar pela vontade de colaborar de uma só pessoa e terminar em um filme de duas horas desenvolvido de forma colaborativa por centenas de pessoas no mundo todo.

Quanto ao famoso "modelo de negócios" por trás desta idéia maluca, novamente o software livre serve de modelo. Grandes estúdios, tal como grandes empresas de TI, poderão identificar talentos comprovados na comunidade e à estes oferecer excelentes oportunidades profissionais (até para que eles lhes ajudem a mudar a sua própria postura no mercado, como ocorreu com a IBM em TI por conta do software livre). Novamente a sustentabilidade através da prestação de serviços ainda é possível. Milhares de locadoras, donos de salas de projeção e até vendedores independentes (camelôs) podem colaborar economica ou financeiramente para a realização de novos projetos, afinal sua sustentabilidade dependerá disso.

Isso tudo pode parecer maluquice, mas eu realmente gostaria de compartilhar aqui estas idéias. A propósito, se alguém aí quiser começar o roteiro de um bom filme de horror baseado em São Paulo, me contate pois este Dr. Jekyll não tem vergonha em assumir que tem seu lado Dr. Hyde (literário, é claro... ou será que não ?).

Aguardo comentários.
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